Sabia que ...

Sabia que ...

Porsche 917 K/81 de 1981


Não há volta a dar. Gosto de carros fora de época, de projectos impossíveis e de feitos heróicos. E este Porsche 917 K/81 de 1981 reúne esses três elementos como poucos o terão feito até hoje.
Era um projecto meio louco, feito à revelia da Porsche, com os irmãos Kremer a conseguirem obter os planos e as peças alegando tratar-se da construção de um 917 "de estrada" para um coleccionador. Na época os Grupo 6 tinham deixado de ter o limite de 3 litros de cilindrada e os irmãos Kremer queriam ter um sport-protótipo, como o 936... que a Porsche não lhes vendia.
Então decidiram transformar o velho combatente num carro moderno, reforçando um pouco a estrutura (em 10 anos, a aderência do pneus tinha evoluído muito e exigia-se agora um chassis mais rígido) e modificando a aerodinâmica, com a introdução de um spoiler dianteiro e de uma enorme asa traseira, "feita a olho", e sem túnel de vento, criava um enorme arrasto e servia mais de travão que de apoio aerodinâmico o que diminuía a velocidade de ponta do 917 para uns meros 300 km/h. Assim, fizeram o 18º tempo a 17 segundos do Porsche 936/81 da “pole”.
A mudança das relacções de caixa melhorou o desempenho para a corrida e o carro já rodou mais próximo dos primeiros, embora algo limitado na velocidade de ponta que chegou apenas aos 327 km/h.
Com Bob Wollek a iniciar a corrida, o carro chegou a rodar nos 10 primeiros. Mas o piloto francês detestava o comportamento errático do 917 e teve sempre um mau pressentimento em relacção ao modelo. Acabaria por desistir voluntariamente da corrida, deixando o carro aos seus companheiros de equipa (Xavier Lapeyere e Guy Chasseuil).
Se em Le Mans o carro nunca funcionou bem (levando ao abandono de Bob Wollek, que teve um mau pressentimento, além de entender ser demasiado arriscado estar ali num carro mal desenvolvido e com peças antigas), para a manga final do campeonato de marcas, em Brands Hatch, a Kremer decidiu alinhar com o 917 na última prova onde seria admitido. No ano seguinte começaria a época do Grupo C e as limitações de consumo não dariam quaisquer hipóteses ao guloso 12 cilindros de 5 litros. Os pilotos seriam Bob Wollek e Henri Pescarolo.
O feito heróico deu-se com Wollek ao volante, pois discutiu o comando da corrida com dois futuros Grupo C (Lola T-600 e Ford C-100) e, escândalo, chegou ao comando da prova, onde se manteve até desistir, por saída de estrada.
Quando chegou à box, um dos irmãos Kremer chamou cretino a Wollek: "então julgavas que podias medir-te com os novos Grupo C sem fazer asneira?"
Cretino és tu - terá respondido Wollek. A direcção partiu-se!
Uma caixa de direcção usada, fornecida pela fábrica, não aguentou o esforço, agravado pelas novas borrachas e pelo apoio aerodinâmico suplementar.
Wollek compreendeu então que desistir em Le Mans tinha sido a atitude certa. E uma grande sorte. A caixa de direcção do 917 era a mesma e, somando as 2 ou 3 horas mais que a peça resistiu depois do abandono em Le Mans, se tivesse continuado em prova em França, teria partido a direcção entre a madrugada e a manhã de domingo, num circuito de alta velocidade e com consequências imprevisíveis.
Mas a aposta em Brands Hatch estava ganha: com um carro do passado, Wollek e os irmãos Kremer tinham batido todos os carros do futuro.
"Priceless".


Ricardo Grilo

Sportscar Portugal

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