A edição de 2018

A edição de 2018


Ir a Le Mans é o sonho de muitos de nós, participar nesta corrida fantástica realmente não é para todos. Estive em Le Mans em 2011 e 2015, a primeira como fotógrafo e a segunda como espectador tendo ficado 10 dias acampado, presenciei duas formas distintas de viver Le Mans. Restava uma. Fazer parte desta festa a nível mundial. Felizmente que não fui o único a ter este sonho. Como comissário de pista no Autódromo do Estoril tentei saber como poderia participar como comissário, já que no passado estiveram presentes por mais que uma vez uma equipa de comissários da ACDME.

Entretanto outros colegas e apaixonados por esta prova estavam já com um grupo quase criado e tive o privilégio de ser incluído nele. O primeiro encontro foi ainda antes da edição de 2017. Durante a transmissão da prova pelo EuroSport fui convidado para ser entrevistado e apresentar o nosso projecto.

O passo seguinte foi tratar da documentação, licença desportiva da FPAK, curriculum desportivo internacional, inscrição no ACO como comissário de pista e o seguro internacional.

Quanto à deslocação optámos pela viagem de avião até Paris e o aluguer de quatro viaturas para os 16 comissários que funcionaram em 6 equipas.

Ficámos nos dois postos logo a seguir à primeira chicane das Hunaudières nos postos 12b e 13b. A equipa era composta por 38 comissários, 16 portugueses e 21 franceses.


A deslocação foi na terça-feira (12 junho), apanhámos o voo TP436 da TAP e ao chegar a Paris (Orly) fomos levantar os carros alugados e iniciámos a viagem por autoestrada até Le Mans.

O primeiro passo assim que chegámos a Le Mans foi tratar das nossas credenciais na MMArena e receber o nosso fato. Seguiu-se a visita guiada ao “quartel general” e todas as operações pelo Eduardo Freitas. Ao entrar no paddock a caminho da torre de controlo encontrei um “amigo virtual” e quando me dirigi a ele e perguntei “pardon monsieur, vous etes Jean-Luc?” e ele respondeu “ahhh tu es le portugais???”… como o mundo é pequeno…


O passo seguinte foi encontrar o nosso acampamento, a “Family Vilage”, que ficava a cerca de 500 metros dos nossos postos. Aqui conhecemos parte dos nossos colegas franceses enquanto montávamos as tendas.


Durante a noite ainda fomos visitar o paddock, quando fomos informados que havia um grupo de portugueses que queriam partilhar umas cervejas connosco. Eram parte dos mecânicos da equipa Algarve-Pro Racing.


Na quarta-feira, a nossa primeira aventura foi procurar um local para o pequeno-almoço. Estava tudo fechado, com o horário de abertura do McDonalds e dos (poucos) estabelecimentos existentes às 10h restava-nos continuar a procurar. Então vimos que o “Auberge des Hunaudières” estava aberto e servia um pequeno-almoço fantástico, sumo, café, pão, manteiga, doce e omelete por 8€. O nosso lugar de eleição para sexta.


Os treinos começaram às 16h e terminaram às 0h00, na quinta só o horário de entrada ao serviço foi diferente. O início foi às 8 da manhã e terminou igualmente às 0h00. Íamos alternando segundo sugestões dos nossos colegas franceses entre a sinalização e a intervenção, os turnos eram de 30 minutos e alternávamos também entre o posto 12b e o 13b. O único senão era a comunicação em “francotugalês”, até foi divertido. Falo por mim, foi muito positivo aprendi bastante e no final desta aventura já conseguia fazer uma conversação mínima em francês…


Durante a noite de quinta ainda tememos o pior, choveu muito durante a noite mas de manhã estava tudo seco, foi falso alarme…
Sexta-feira, o nosso dia de folga, fizemos uma visita ao museu depois da ida ao “Auberge des Hunaudières”. Já lá tinha ido em 2015 mas é um lugar onde nunca se dá o tempo como mal empregue. É uma autêntica máquina do tempo onde somos “teletransportados” para outra dimensão e consegue-se sentir o espirito de aventura e coragem de outras décadas, desde o Bentley vencedor em 1924 até ao Porsche vencedor de 2017. Uma viatura impressionante é o Morgan de 2013, um art-car obra de Fernando Costa que criou um exemplar único onde num chassis Morgan de LMP2 criou uma obra composta por partes de sinais de trânsito rebitados ao chassis de carbono e posteriormente soldados entre si resultando num peso adicional de 450kg. Graças à Dassault Systems Design Studio foi recriado toda a obra em vinil que foi aplicado no Morgan que iria participar na corrida. Outra viatura marcante desta corrida é o também Morgan LMP2 pilotado pelo quadri-amputado Fréderic Sausset.


Quando terminámos a visita ao museu, rumámos ao pit-lane e à mítica curva Dunlop, onde estava à nossa espera o troféu das 24 Horas. Quando chegámos à base da torre foi a vez do fotógrafo José Bispo tirar uma foto ao grupo que depois de 25 anos regressava a Le Mans como comissários.
É sempre bom reencontrar amigos, foi o caso do Castro, um amigo ex-comissário do Estoril agora mecânico da Ford no carro nº66.


As horas passavam, o almoço foi em Arnage já pelas 16h00. O ambiente era de festa onde quase todos os carros eram incentivados a fazer algum barulho havendo cânticos para os… Renault Twingo…


Ainda na sexta-feira tivemos um convite dos nossos colegas franceses para um cocktail de boas vindas e assistimos ao jogo de futebol Portugal/Espanha. Tive a oportunidade de conhecer mais um português com um papel muito importante na prova, o controlador do Safety-Car C, posso dizer que tive uma formação de procedimentos de Safety-Car que desconhecia por completo. Foram também definidas as equipas e os horários de trabalho para os dias da prova. Durante a prova iriamos fazer turnos de 3 horas com um descanso de 6 horas.

No sábado o dia começou pelas 6:30 para todas as equipas, iniciando-se os turnos pelas 8h45. Ainda houve tempo para ir à curva de Mulsanne depois do meu primeiro turno da tarde. Durante a noite pelas 23h30 ainda fomos visitar o bar dos comissários, um local priveligiado no 3º piso da bancada com vista sobre as boxes e toda a recta da meta, simplesmente brutal. O meu próximo turno foi das 3 às 6 da manhã, o pouco tempo de descanso foi com o fato vestido e o despertador ligado. Para alguns seria o pior período já que foram muitas horas sem descanso e o facto de o barulho ser tanto que parecia que os carros estavam a andar dentro da tenda não ajudava em nada, o certo é que passou num fechar de olhos. O amanhecer para além do belo efeito que proporciona, dá-nos a sensação de que estamos a entrar na fase final da corrida mas ainda faltam cerca de 9 horas...
Durante a prova e nos treinos ficámos surpreendidos com as comunicações de radio, por vezes pensávamos que o radio poderia estar avariado, tal era o silêncio. A simplicidade das comunicações passava por algo deste género: “Poste 12bis voiture X, accident nivel 1 (2, 3 ou 4)” onde o nível 1 seria saída normal de pista com o regresso pelos próprios meios, nível 2 necessita de intervenção (geralmente pelas empilhadoras Manitou), nível 3 necessita de neutralização e o nível 4 é igual é igual ao 3 mas para os híbridos, neste caso os Toyota. Simples e eficaz.
O final da prova é um dos momentos mais emocionantes, um misto de dever cumprido e de saudades, após a bandeira de xadrez, é iniciada a volta de consagração. É algo que nos toca bem fundo, todos os comissários a saudar os heróis que conseguiram chegar ao fim dá um aperto enorme no coração e as lágrimas querem sair…


Entretanto foi altura de trocar uma lembrança simbólica mas muito especial com os nossos companheiros franceses. Trocámos as nossas bandeiras devidamente assinadas por todos nós. Foi um gesto muito bonito e emocionante, afinal de contas foi uma experiência fantástica e a realização de um sonho!


Chegou a hora de desmanchar as tendas e arrumar todo o material para irmos descansar num hotel para uma noite bem merecida. Ainda houve tempo para um passeio nocturno na cidade passando pela Praça dos Jacobins e Praça da República.


O regresso foi na segunda logo de manhã por autoestrada até Paris seguido pela viagem de avião no voo TP449 da TAP, o único senão foi o atraso de 2 horas que o avião teve… No aeroporto de Orly ainda tive um problema do qual não estava à espera. No domingo ao arrumar as coisas o fecho do saco partiu-se e tive que o amarrar com umm pedaço de corda e fechá-lo com fita adesiva “americana”, mas ao embarcar a bagagem o saco foi recusado a ser enviado para o porão, isto porque o facto de ter a cadeira de campismo amarrada e colada com a fita o volume não correspondia ao formato standard de bagagem, não me restou outra alternativa senão retirar a cadeira e amarrar de novo o saco... Com tudo isto, a cadeira tinha que ir para o lixo mas ninguém soube (ou quis) dizer onde a poderia colocar, como o aeroporto estava sob forte vigilância policial por causa dos atentados terroristas não a podia colocar em lado nenhum, sob pena de ser acusado de abandonar um objecto suspeito. Valeu-me um funcionário da papelaria que aceitou ficar com ela em troca de um… chocolate quente…
Por norma os comissários são sempre os primeiros a chegar ao circuito e os últimos a sair. Daí que nem sempre se consiga ter aquela foto com os nossos pilotos preferidos, mas desta vez fomos compensados, ainda antes da chegada do avião tivemos o privilégio de encontrar o Eduardo Freitas no aeroporto e ter como companheiro de viagem o grande Pedro Lamy.

A vontade de regressar é enorme, foi uma experiência única para o nosso curriculum desportivo, espero que o regresso seja breve.
Até lá.

"Amica Le Mans"
Luis Santos
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