As evoluções técnicas

As evoluções técnicas


Desde a sua criação em 1923, que Le Mans tem uma reputação de "banco de ensaio tecnológico", tanto a nível mecânico como aerodinâmico dos veículos participantes, algumas das soluções foram revolucionárias na história do mundo automóvel, outras nem por isso.
Esta página pretende ser uma amostra do que evoluiu ao longo deste tempo.

1927 - Primeiro veículo com tracção dianteira - Tracta
Maurice Fenaille concorda em financiar um projecto desportivo desde que este seja inovador: será tracção dianteira - uma arquitetura quase inexistente na época. A Tracta termina a corrida na sétima posição, percorrendo 1.687 km à média de 70 Km/h. Dois anos depois, o fabricante de Asnières ainda surpreende alinhando um pequeno carro de tracção dianteira e de 4 cilindros a dois tempos com um litro de cilindrada.

1949 - O primeiro motor diesel - Delettrez
A tecnologia inventada no final do século XIX por Rudolf Diesel tem a sua ténue aparição nas 24 Horas de Le Mans. O 6 cilindros de 4.4 litros de origem G.M.C. desenvolvia cerca de 70 cavalos de potência e permitia uma velocidade máxima de 170 Km/h. Assim propulsionado, o Delettrez mostra-se fiável e económico (- 10 litros por 100 km), mas desistiu devido a falta... de diesel!

1949 - O primeiro motor traseiro - Renault
A Renault não queria que os seus 4 CV fossem inscritos nas 24 Horas de Le Mans, por uma boa razão: o motor do carro só desenvolvia 32 cv... Uma potência muito fraca para a longa recta das Hunaudières! Apesar da oposição da administração da Renault, Camille Hardy faz uma corrida honrosa antes de abandonar. Esta iniciativa abre as portas a outros, e até mesmo ao próprio fabricante que se inscreve oficialmente em 1951.

1953 - Travões de disco - Jaguar
A Jaguar utiliza pela primeira vez travões de disco fornecidos pela empresa aeronáutica Lockheed. Este sistema permitia travar muito mais tarde, o que resultaria em tempos por volta muito mais baixos. O resultado foi a vitória do XK 120C, bem como o segundo e quarto lugares.

1955 - Travões aerodinâmicos - Mercedes
Em 1952 durante os ensaios, a Mercedes apresenta um 300SL com um travão aerodinâmico no tejadilho, que reduzia a velocidade. Eram accionados 2 veios hidráulicos alimentados por uma bomba de comando manual accionada pelo piloto. Este sistema não foi utilizado na corrida. Foi utilizado em prova em 1955 nos 300SLR, que até ao abandono da equipa devido ao acidente de Pierre Levegh lideravam a prova.

1956 - Primeiro motor de injecção - Jaguar
Depois da estreia dos travões de disco em 1953, a Jaguar continua a inovar com um bloco de 6 cilindros em linha com injectores. Estes são posicionados sobre a válvula de admissão (sistema indirecto). Infelizmente, é precisamente o um tubo de injecção que custa muito tempo ao Type D de Mike Hawthorn e Ivor Bueb.

1963 - O primeiro motor de turbina - Rover BRM
Desde 1957, o ACO estabelece uma categoria para veículos movimentados por uma turbina. 25.000 francos são prometidos ao concorrente que estabeleça 3.600 quilometros com este tipo de motor. A Rover aceita o desafio, mas sem pertencer à classificação final por causa do enorme tanque de querosene (220 litros), instalado no chassis BRM. Ladeado pelo número "0" (como o DeltaWing em 2012), o carro classifica-se oficialmente em sétimo, permanecendo até hoje como o melhor desempenho de um carro de turbina em Le Mans.

1963 - A primeira vitória de um motor traseiro - Ferrari
Na Formula 1, o ano de 1958 é marcado pelo surgimento de uma solução técnica revolucionária no automobilismo: O posicionamento dos motores na traseira. Enzo Ferrari via o Cooper-Climax com desdém, considerando que "os cavalos puxam o arado e não o empurram." Ironicamente, foi ele que foi o primeiro a impor esta arquitectura as 24 Horas de Le Mans em 1963 com 250 P.

1964 - Efeito de solo/Estudos aerodinâmicos - CD
Charles Deutsch utiliza pela primeira vez um estudo que complementava a carroçaria, suspensão chassis e pneus, que iria abrir as portas à aerodinâmica moderna bem como ao efeito de solo, que iria ter o seu apogeu nos anos 80. A aventura resultou no abandono de ambos os carros devido a problemas mecânicos.

1970 - Primeiro motor rotativo - Chevron-Mazda
Inventado pela empresa NSU em 1957, o motor rotativo surge em Le Mans através de uma iniciativa privada. O Chevron-Mazda pesa 570 kg para uma cilindrada de 982 cm3. O pequeno bi-rotor pesa apenas 60 kg e oferece 200 cv emitindo um gemido característico. A aventura termina após quatro horas de corrida com o motor partido.

1974 - O primeiro motor turbo - Porsche
A Porsche alinha com 2 911 alimentados por um insólito 6 cilindros boxer turbo para fazer face à Matra com os seus protótipos alimentados pelo seu muito apreciado e melodioso V12. Na véspera do evento, ninguém imaginaria que o som abafado deste motor anunciasse uma revolução iminente ...

1976 - A primeira vitória de um motor turbo - Porsche
O 2° lugar conquistado em 1974, incentiva a Porsche para continuar no caminho do turbo. Mas o fabricante alemão já não está mais sozinho: A Renault, que registou uma patente sobre o princípio de turbo em 1902, decidiu impor esta tecnologia na competição. Inscrevendo a Alpine, os protótipos franceses são rápidos, mas menos fiáveis do que os seus homólogos alemães.

1980 - O primeiro combustível "Biológico" - Porsche
Os preços dos combustíveis são altíssimos. O Governo francês lança o plano «Carburol» destinado a incentivar o desenvolvimento de substitutos para os derivados de petróleo. o ACO apoia a iniciativa. Thierry Perrier aproveitou a oportunidade para inscrever o primeiro carro movido com um combustível verde. O Porsche 911 SC, alimentado por uma mistura de etanol e gasolina, termina em 16° as 24 Horas de Le Mans e venceu o Grupo 4.

1991 - A primeira vitória de um motor rotativo - Mazda
A corrida promete ser um duelo entre a Mercedes e a Jaguar. A Mazda não é considerada como um candidato à vitória devido ao consumo excessivo do motor rotativo. Mas os engenheiros japoneses trabalharam para minimizar essa fraqueza: o carbono substituí o alumínio no chassis, e o anterior tri-rotor deu lugar a um quadi-rotor optimizado. Aproveitando-se da derrota dos favoritos, a Mazda assume a liderança a duas horas do fim perante a surpresa de todos.

1998 - O primeiro motor híbrido - Panoz
Don Panoz apresenta o primeiro carro de competição híbrido da história. Ao grande 6 litros Ford está associado um motor eléctrico. Enormes pilhas são recarregadas durante a travagem e disponibilizam energia para a aceleração. Vai demorar mais de dez anos para ver um sistema KERS (Sistema de Recuperação de Energia Cinética) equipar um Fórmula 1. Tendo efectuado um respeitável 3'53"199, o Panoz Q9 não se qualificou para as 24 Horas de Le Mans.

2001 - A primeira vitória de um motor de injecção directa - Audi
Os dois Audi R8 Oficiais pareciam idênticos aos que se apresentaram no ano passado. Mas sob o capõ, o V8 apresenta um sistema de injeção directa, a pressão chega a 100 bar! Além disso o efeito de resposta do turbo era eliminado, esta alteração reduz o consumo e permite ao carro fazer uma volta extra entre cada reabastecimento. Face aos seus «primos» Bentley, os Audi R8 realizam uma estrondosa dobradinha.

2006 - A primeira vitória de um motor diesel - Audi
Reintroduzido em 2004 por um Lola-Caterpillar pouco convincente, a tecnologia diesel introduziu na Endurance uma nova era. O Audi R10 é o primeiro de uma nova geração de carros silenciosos e diabolicamente eficazes. O incrível binário do V12 bi-turbo de 5,5 litros deixa para trás os seus adversários, que só se podem concentrar na fiabilidade. Além da vitória na primeira tentativa, o segundo carro termina em terceiro.

2012 - A primeira vitória de um motor hibrido e primeira vitória para um 4x4 - Audi
Tanto a Audi como a Toyota apresentaram-se como candidatas à vitória, tanto na geral, como na guerra pela vitória com motorização hibrida. A Audi apresentava 2 volantes de inércia no eixo dianteiro nos R18 E-Tron Quattro, um para cada roda, o que o tornava numa viatura 4x4. Por sua vez a Toyota nos TS030 Hybrid utilizava um motor eléctrico no eixo traseiro. Mais uma vez caberia à Audi a dobradinha, enquanto a Toyota abandonava com um acidente e um motor partido.

2012 - Delta Wing
É apresentado o projecto "Box 56" que será reservado a projectos inovadores. O eleito a participar na edição de 2012 foi o projecto americano Delta Wing, inicialmente previsto para ser o chassis oficial da Fórmula Indy, que foi entretanto recusado. Para participar em Le Mans poucas alterações teve, foi alterado o habitáculo e introduzidos os faroís. A aventura terminou quando foi abalroado por um dos Toyota tendo efectuado tempos ao nível dos LMP2.

2014 - Primeira volta totalmente em modo eléctrico - Nissan Zeod RC
O protótipo Nissan Zeod RC inscrito no programa "Garagem 56" é o primeiro carro a completar uma volta ao circuito em locomoção totalmente eléctrica. Este carro foi uma evolução do anterior Delta Wing que participou em 2012. Outra inovação deste carro consistia no seu pequeno motor de 3 cilindros turbo e 40 quilos de peso. (Em 1959 a SAAB participou com o 93 de 3 cilindros mas a 2 tempos). A aventura terminaria ao fim de 5 voltas com problemas de caixa de velocidades. A Audi equipa os seus R18 com faróis laser, obtendo um feixe de luz com 836 metros.


Outros detalhes de interesse:


Textos de ACO / Luis Santos
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